Quando a Netflix começou a ganhar forças no mercado para se tornar até então o principal e maior serviço de streaming do mundo, ela precisaria manter seus assinantes interessados em seu catálogo, já que o entra e sai de materiais de outras emissoras atrapalhavam em prender a atenção do público. Com isso, alguém teve a brilhante ideia: “Vamos produzir os nossos conteúdos originais”, assim ninguém poderia remover nada da plataforma. Nesta época, as duas maiores responsáveis em trazer novos assinantes e manter os antigos, era “House Of Cards” e “Orange Is The New Black”, abrindo portas para as demais que estariam por vir. Sem muita restrição, a Netflix queria produzir algo que ainda não estava sendo feito na tv convencional, testando vários caminhos e vendo qual direção deveria tomar e isso foi um acerto daqueles.

Por que não fazer uma série onde uma mulher, branca e rica é presa e relatar a quem está assistindo como funciona uma penitenciária de segurança mínima dos EUA?

Orange Is The New Black, é inspirado em um livro de mesmo nome, na história real da autora Piper Kerman. Na versão pra televisão, conta a história de Piper Chapman(Taylor Schilling) que anos atrás cometeu o crime de tráfego internacional de drogas e foi condenada a passar 18 meses encarcerada após a delação premiada de sua ex-namorada Alex Vause(Laura Prepon). Achamos que o foco onde fez a série ser tão interessante é como se mostra a prisão, acreditando que maioria do público do show nunca pisaram em um local do tipo. Conforme acompanhamos a perspectiva da protagonista, o roteiro vai se desenvolvendo e despertando a curiosidade, inclusive é uma das séries mais maratonadas do serviço de streaming, mas lógico que a descoberta uma hora ia ficar massante e com isso os roteiristas foram extremamente criativos: “Vamos mostrar os dramas reais de quem vive ou viveu num ambiente como este”.

Outras personagens são exploradas e tem seu próprio percurso narrativo, sem ao menos cruzar com a da Piper. No mínimo, por temporada são trabalhados 10 arcos e a audiência teve mais de um opção para escolher “a sua persona favorita”, como a russa Red(Kate Mulgrew), a ex-viciada em heroína Nicky(Natacha Lyonne), a esquisofrênica Suzanne(Uzo Aduba) e por aí vai. O elenco é rico e extremamente talentoso, são poucas as atrizes que ficam apagadas pelas outras, mas em sua maioria, o cast acerta e muito aqui.

Ao passar das temporadas havia muito material para ser desenvolvido e tiveram que fazer uma escolha: Qual será a trama principal a partir de agora?

Piper agora se torna só mais uma penitenciária a partir da metade da terceira temporada, a escolhida para pegar o bastão de protagonista é a ótima Tasha Jefferson(ou Taystee, como preferirem chamar), interpretada pela atriz mais talentosa do elenco, Danielle Brooks. Ela possui talento e carisma de sobra, se precisava de alguém que aguentasse conduzir toda essa carga dramática que estaria por vir, Danielle não só faz mas também se entrega.

É em Tasha que é visto as injustiças que o mundo faz com a comunidade negra, como o racismo acaba com milhares de vidas, como o sistema carcerário não é eficiente e cheios de falhas, como vidas perdem o valor de serem humanos mesmo tentando pagar pelos seus erros. No seu auge de audiência e crítica, a quarta temporada começa a mostrar seu lado sombrio, mesmo sem perder o humor, são cenas de partir o coração, não apenas porque você se apegou a tais personagens, mas porque aqueles horrores de fato acontece e não estão muito distante de nós. Basta fazer uma pesquisa em qualquer presídio mais próximo de sua residência e ver quais serão as resposta dos detentos sobre o tratamento humanitário dado. Ainda acham que são criminosas e que não merecem nenhum tratamento digno, isso que OITNB nos faz refletir e o que mais surpreende é como esse assunto caiu nas graças do público mesmo abordando assuntos sobre homossexualidade, abuso de poder, injustiças, machismo, feminicídio, aborto, liberdade de expressão e tudo que é tabu pro mundo. Isso é mostrado a grande escala, fazendo com que esses temas fossem discutido, não importa se é contra ou não, se concorda ou discorda, a Netflix deu visibilidade e só por isso merece prêmios em honraria a isto.

Mas como nem tudo são flores, o ritmo durante a quinta temporada vai se perdendo, ficando exagerado tendo longos 13 episódios pra resolver a premissa da vez. O mesmo acontece com a sexta temporada, falta assunto e não adiantou colocarem novas personagens, só queríamos a resolução das nossas antigas detentas. Quando foi anunciado um nova temporada ainda nos pareceu sem necessidade, já havia sido resolvido anteriormente, de forma injusta, mas resolvido. Estamos falando de série sobre prisão, esperar finais felizes deixam um pouco a desejar e com isso veio a sétima e última temporada. O clima é(obviamente) de despedida, não foi fácil dar adeus a tantas personagens que acompanhamos por 7 longos anos e a forma para dizer adeus é dramática, a comédia de vez em quando ressurge porém nada grande. Mais uma vez são abordados assuntos que vão lhe incomodar, lhe fazer chorar. Assim que acaba, o sentimento que fica é o de querermos tentar fazer nossa parte e deixar o mundo um pouco menos injusto.

O roteiro fica arrastado, demorando para engatar, guardando o que importa pros últimos episódios. Novas personagens são apresentadas, mas desta vez com um pouco mais de cuidado, fazendo você se apegar a elas. Desde o início se vê que a produção ouviu as críticas dadas nas duas últimas temporadas e logo nos 4 primeiros capítulos são resolvidos com alguns conflitos. O grande assunto da vez é a crueldade de leis imigratórias como (crianças virando júri, pais sendo separados dos filhos, mulheres sendo deportados para países com um sociedade machista que mutilam seus corpos e até mesmo deportação apenas por não terem nascido nos EUA mesmo passando 95% da sua vida lá). O clima é de impotência, não há nada a fazer quando não se possui recursos. 

Tudo é respondido e não espere um final de novela, a melancolia pesa e alguns desfechos são melhores que outros. No sentindo da drama,  proporcionalmente, você pode não gostar, mas a Netflix quis fazer uma resolução mais fiel possível com o que condiz com a realidade de presidiárias e mesmo com injustiças, o final é otimista e nos mostra que continuar lutando por dias melhores sempre é a melhor alternativa.

É uma grande homenagem às primeiras temporadas, muitos personagens estão volta, nem que seja por um flashback ou com um papel de volta. Embora o caminho tomado é fofocado em algumas, as outras por sua vez estão mais para matar a curiosidade do público sobre o seus desfechos. Piper e Alex são a pedra no sapato. Algo tão simples de se resolver, porém com o mistério de “vai dar certo ou não” sobre o relacionamento delas, que ganha espaço aqui. O problema é que no último episódio da temporada passada foi esclarecido, com certeza, que repetir a dose não é a solução. Mesmo com isso, o encerramento é majestoso, satisfatório, encerrando um dos melhores produtos originais da Netflix, ressaltando o poder feminino, onde com certeza deixará muito saudade. 

Todos episódios de Orange is the new black estão disponíveis na Netflix.