“Special” conta os dramas de um garoto gay que nasceu com paralisa cerebral “tipo 1” e quer ter sua independência após a faculdade, onde consegue um estágio em um blogue. Com essa premissa, poderia ser um longa digno de Hollywood ganhando o Oscar de melhor filme, mas nesta série a fórmula usada vai totalmente contra este caminho, a comédia de muito bom gosto é a receita ideal para isto.

O protagonista Ryan Hayles interpretado pelo ótimo ator e roteirista Ryan O’Connell, que também tem paralisa cerebral e sempre teve sua condição com certo preconceito de sua parte. A série é inspirada em sua autobiografia de nome “Eu sou especial: E Outras Mentiras Que Dizemos a Nós Mesmos”, onde pelo título já temos uma base do trabalhado que será mostrado em tela e já vem na cabeça uma forte carga dramática. Fica muito claro que pena ou dó não é o que pessoas com dificuldades desejam, elas apenas querem ter uma vida normal como a de qualquer um e o preconceito vive em quem está de fora. O humor é seu ponto alto e não humor de duplo sentido ou negro, é humor de qualidade, onde tabus são expostos mas de forma natural, tendo sim muitas críticas e reflexões, porém mostradas de formas educacionais e nada cansativas.

Todo o elenco é cativante, nada está na tela por estar e todo personagem tem seus próprios demônios para lidar. Os destaques são maravilhosos, Jessica Hecht entrega a mãe que anula a vida em função da condição do seu filho, que embora clichê, o roteiro vai no sentido do desapego. Ela está disposta a desculpar seu filho pelas consequências de suas escolhas, que ele pode errar como qualquer um e apenas o próprio deve encarar isso. A melhor amiga vivida pela Punam Patel é a pessoa que todos queríamos ser amigas, ela não segue nenhum padrão imposto, totalmente desconstruída e faz uma conselheira onde ajuda a Ryan a se desenvolver a sua vida social, porém as melhores piadas ficam por conta da chefe do protagonista Olivia (Marla Mindelle). Ela é cruel mas ao mesmo tempo as mesma coisas que diz nos faz refletir se teríamos a mesma atitude. Não há pena, ela não difere ele de ninguém mesmo que isso prejudique ele (e isso não é uma coisa boa, só pra deixar claro), aqui o importante é que ele se sinta incluso no ambiente de trabalho.

O assunto LGBTQ+ é abortado e criticado, a comunidade gay embora lute por igualdade de direitos, muitas vezes se descrimina a quem pertença ao meio. Se você não for totalmente saudável, com um corpo impecável, com a cultura exigida, com seu intelecto muito bem desenvolvido, sinto lhe informar que você será prejudicado e quando isso é exposto, o próprio Ryan tem preconceitos com aqueles que não seguem padrões, ou seja, alguém que sempre foi rejeitado acaba crendo que exista apenas um tipo de pessoa para ser namorável. 

Os episódios são curtos demais, com apenas 8 à 15 minutos. A vontade de ver mais daquele universo é sabotado por ele mesmo, precisaríamos de 30 minutos em cada episódio pelo menos, onde resta-nos torcer para uma segunda temporada. no mais, Special é um entretenimento de qualidade que todos deveriam assistir sem medo algum.

Todos os episódios estão disponíveis na Netflix.